Talvez, eles precisem aprender a amar

“Que o amor mova o meu coração até o deles. E que o deles se cure com o meu, assim como eu pretendo sarar minhas feridas em um movimento inverso quando eu desaprender o significado do verbo mais importante de nossas vidas.

Amar.”

Júlio Hermann

(Leia este texto ao som de Dulcinéia)

Você já amou tanto alguém a ponto de o teu peito doer? Muitas pessoas, imagino. Eu te pergunto isso porque é um dos gestos mais bonitos do mundo para mim, por mais que às vezes não nos demos conta que ele faz parte de nossas vidas. É singelo para caramba, me parece. Faz a gente se sentir vivo.

Mas, quantas vezes você amou desse jeito sem ser correspondido?

Andando de carro com alguém que amo muito, nós comentávamos sobre os amores-amigos que havíamos tido na vida e não eram recíprocos. Não são poucas as pessoas que se fazem indiferentes a nossa doação por elas. Enquanto ofereceremos nosso tempo, nosso sono, nossos momentos de descanso para nos mostrarmos disponíveis para as fazermos felizes, o reflexo é de uma geleira imensa.

Não sobra nada em troca, nem uma migalha de afeto para nós.

É…

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Se a gente (ainda não) sabe amar.

Aprendi que amar é se doar, se entregar, querer o outro bem e querer vê-lo feliz. O tempo me ensinou isso. As experiências me confirmaram isso. E você me mostrou que se já não souber amar, se eu não souber te amar, o primeiro passo a ser dado é sempre o meu. Devo dizer adeus, deixando para trás apenas os caramelos da nossa jornada. Limões terão de servir de inspiração para boas limonadas.

Nosso tempo foi curto, é verdade. Aquele sentimento de posse existiu, é verdade. Pensei que pudesse te ter pra mim até eu morrer, é verdade. Aquela madrugada ao seu lado passou tão rápido quanto um minuto em teu beijo, é verdade. Mas tão longa quanto um século ao seu lado, é verdade. Penso que disse quase tudo que queria ter dito, é verdade. O que faltou dizer é que eu ainda queria que a gente aprendesse a rir um do outro, com sinceridade e a sutiliza de dois sorrisos que sabem bem o que as rugas nos olhos do outro dizem, é verdade.

Ah! Quanto queria que nosso amor ainda existisse, e que fosse verdadeiro. Não que não tivesse sido. Foi. A insatisfação ainda faz com que tenha a leve impressão de que ainda não vi todos os seus bons encantos. Ah, menino… teus olhos pequenos ainda brilham em minha memória, com todo o sabor de uma balinha de jenipapo… rs é! aquele sorriso doce e cheio de covinha, aquela voz doce e firme… Ah, menino! Queria mesmo era aprender a te amar do jeitinho que cê precisava… ou precisa.

Falar em passado parece um pouco rude demais pro meu coração mimado e mau acostumado. E se eu te pedisse com carinho pra fazer parte de seus dias? Teria sido diferente? Ou eu teria mesmo que reaprender a amar? Você teria se demorado um pouco mais em meu abraço? Ou teria fugido? Você nunca fugiu… então não… acho que não…

Ah!…

Já me disseram que, quando a gente gosta de verdade, vale à pena qualquer coisa. Compor verso ou prosa, carta ou certidão de fidelidade. Buscar cores no céu e no amor, no beijo e no olhar. Ouvir o vento soprar a nosso favor. Mudar a rota, o ritmo, o rumo. Pisar forte no chão e convencer o outro a trocar de caminho, ou se deixar ser convencido, e trocar de caminho, caminhar junto, sem amarras ao passado. Empurrar o orgulho de lado, ferver numa erva e jogar rio acima… se desfazendo dessas pequenas amarras que, às vezes, a gente se impõe.

E se a gente desaprendesse a amar? E começasse a amar um ao outro do jeito que o outro é. Sem sonhos demais? Sonhando a dois, moldando o destino a dois? Sorrindo de manhã cedo, espreguiçando sobre o calor do corpo do outro… demorando aqueles dez minutinhos a mais completamente envolvido no abraço do outro? Assim.. juntinho? E se isso fosse só o começo?

É, menino… se a gente ainda não sabe amar, o que resta é chorar… deixar a água molhar, e ver renascer o amor… abençoado de lágrimas de saudade.

casal pôr do sol

A estrada, a Estrela e o catavento

Havia dias que aquela estrada fria fazia arrepiar o mais incrédulo dos mortais que ali vivia. A estrada era torta, vazia e comprida. Dava pr’um horizonte sem fim de possibilidades. O sol nascia d’um lado e se punha d’outro. De um lado, o poço de água limpa, cristalina; do outro, o mar e o lembrete constante de que se entrou nessa de enfrentar a rebentação, é pra aprender a remar. E era assim que os dias seguiam. O sol nascia d’um lado, se punha do outro, o caminho ficava úmido quando chovia, seco quando escaldava, fértil quando equilibrava. A caminhada pro poço d’água, às vezes, parecia longo, exaustivo, sem fim… mas o retorno era sempre alegre. Daí, de tão alegre, dava até vontade de enfrentar todo aquele chão até a casinha no meio do caminho, correr o outro caminho e atirar-se ao abraço frio e convidativo do mar. Tomar fôlego. Enfrentar as ondinhas e ondas maiores. Quanta satisfação em cada braçada.

Depois de tanta festa e alegria, havia, então, o retorno. No caminho, ia colhendo as frutas do pomar, caminhando num passo manso e satisfeito. Os pássaros que avisavam o crepúsculo voavam leves para o ninho, fazendo o ar vibrar com cantos fortes de despedida. Os potes de água cristalina eram levados para dentro da casinha enquanto a luz do sol se despedia, e a luz tinha vez no transcorrer do dia. Via como era lindo aquela imagem da luz da Lua surgindo nova no fim da estrada, iluminando até onde podia, alcançando com seu manto de estrelas cintilantes os mais longínquos lugares, preservando a riqueza da temperança.

E era dia novamente. A primeira Estrela dava sinal de que o dia vinha raiar de novo. Os pássaros voavam, as flores acordavam, as árvores deixavam o sereno escorrer para suas raízes, curando e servindo de primeiro alimento.

Era dia.

O vento que passava por ali dizia: hoje. Viva hoje. Sinta hoje. Sorria. Respire. Inspire. Expire. Respire… sinta… é hoje.

Como num piscar de olhos.

A verdade era que seus braços sempre me protegiam quando aquelas inseguranças se aproximavam para assombrar aqueles dias quase mornos. Como se tudo aquilo fosse muito comum para mim, e como se o cheiro e os barulhos daquela casa me fossem familiares, eu esperava pacientemente você se firmar novamente em seus próprios pés para que nos aproximássemos novamente e fizéssemos daquela casa, com o jardim que sua mãe tanta gosta, e aquele salão inacabado, nossa. Lar de nosso amor e de nossos filhos.

Foi como num piscar de olhos que entrei naquele trem e te vi na plataforma, parado, com o casaco jogado no antebraço, sorrindo docemente, acenando um adeus que parecia sem fim. Seus olhos me diziam isso. Era um adeus. Só não era o fim. Aquele nosso amor iria sempre estar lá, como água turva em que a poeira assentou.

O inverno chegou denso este ano. As temperaturas mais do que apenas abaixo de zero, deixaram as ruas lindas de se ver, mas os dias dolorosamente frios de se viver. Aquele caminho para o trabalho, sem você ao meu lado enquanto pegava o ferry foi não somente estranho, mas solitário. Os ossos doíam de frio, e a pele ressecava com o vento seco. O dia podia até estar ensolarado, mas dentro de mim, estava tudo acinzentado. Seu coração batendo ao lado do meu enquanto segurava minha mão era o que trazia luz para aquele percurso.

***

As portas do hospital se abriram mecanicamente enquanto dava meus primeiros passos pelo saguão de entrada. Na realidade, nada me deixava mais feliz do que saber que através daqueles corredores, do balcão de recepção e passando pela porta do seu quarto, eu poderia ouvir o pi-pi-pi  bem baixinho da máquina. Seu coração, meu Sol… estava ali, firme… batendo. Queria eu poder trocar a ordem da sorte e fazer meu coração bater por você, meu pulmão respirar por você, meu cérebro despertar por você. Eu sussurrava na esperança que você ouvisse que o tanto que te amava não cabia apenas nessa vida. Nada me traria maior satisfação que ver seus olhos olharem pra mim novamente. Aquele olhar que só você tinha nos domingos de manhã.

Respire. Tome fôlego. Esse mar de água que parece pesar, logo irá se dissipar, era o que te dizia, suplicando que acordasse e me confirmasse com qualquer gesto que você estava ouvindo. Se soubesse o quanto tenho esperado por qualquer sinal de que seu corpo não fraquejou… seu corpo, esse universo onde todo meu existir fez de lar… assim, frágil… me faz sentir distante de onde pertenço… em seus braços. Em seu abraço.

Foi como num piscar de olhos. Te vi entrar naquele trem. Te vi na plataforma, parado, com o jornal do dia em uma das mãos, sorrindo docemente. A expectativa daquele abraço que há muito não era dado trouxe um brilho de olá interminável ao seu rosto. Seus olhos me diziam isso. Era um olá. E era só o começo. Esse nosso amor vem sempre estar aqui, como água clara que lava, cura e acalenta.

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Quero você até o fim.

Ainda quando nossas peles estiverem enrugadas

e nossas sorrisos amarelados dos longos anos bebendo café.

Eu quero você.

Quero você pra que a vida siga colorida, assim…

linda…

Uns filhos no meio do caminho fazem bem.

Um sofá na sala, talvez.

Vamos misturar nossos livros?

Minhas estantes já envergaram, mas não tem problema…

A gente conserta. Põe um reforço, uma força, uma peça.

É que essa ideia de ter você por perto vem tomando conta dos meus dias…

É…

Você, eu… aquela casa verde e rosa no pé da ladeira.

Seu carro velho do lado de fora. haha

Vem…

Vem com esse seu jeito que a gente dá um jeito de fazer as coisas irem bem.

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AQUELE SOBRE AS REFLEXÕES DE FIM DE ANO

São 10:15 da manhã de uma segunda-feira sem chuva. Quem me dera tivesse chovido, e aquele cheiro raro de terra molhada – da minha terra! – tivesse vindo invadir e substituir o cheiro de poeira assentada da sala 9006 onde, agora, faço mais um processo seletivo. As 45 questões que se passaram foram feitas com um constante lembrete. Terno, porém com cargas enérgicas de um pai disciplinando seu filho malcriado. No verso do papel em que escrevo, há um bilhetinho, com poucas palavras, mas que possuem o peso total de uma carreta Romeu-e-Julieta descendo uma ladeira. Nele está escrito:

“Estude. Pois toda conquista começa com a disposição de procurar fazer as coisas da maneira correta”.

E eu sei que posso mais do que já estou fazendo. E eu sei que vou conquistar o que quero. A ação, a insistência e a persistência estão neste DNA que carrego. Ainda mais: está no registro hereditário das mitocôndrias de cada uma de minhas células. Haha

2017 foi um ano de descobertas. Um ano de superações. Um ano de tornar meu corpo material mais resistente. De conquistar um caminho espiritual mais firme. Se fosse descrever os dias, as semanas e os meses desse ano que se despede, diria que foram… a brisa de um furacão. Foi assim: acordei cedo e fui ao mar para banhar meus pés, e as ondinhas vieram mansas como tsunamis. As casas ao redor se “desmantelaram” e eu, não sei bem o porquê, muito menos o como, consegui emergir em meio aos catastróficos movimentos daqueles suaves banhos d’água que me atingiam até o meio das cochas.

Pode parecer paradoxal, eu sei. Mas é que tudo quase passou tão rápido que não consegui distinguir bem as emoções.

O caldeirão da feijoada ferveu todas as minhas tripas atém virarem pudim. E eu me deleitei com a sobremesa que se formou.

Pode ser, afinal, que o avesso seja mesmo o meu lado certo.

Ou pode ser que tudo tenha ocorrido tão exagerado e intrinsecamente conectado que nem bem tive tempo de olhar a contracapa do livro, e já tinha devorado toda a história que 2017 tinha para me contar.

Ufa!

Enfim vislumbro, com uma vistosa semente de paciência, o ano de 2018.

Não sou boa em fazer promessas. Melhor: em cumprir promessas. Haha… Mas gosto de estabelecer metas. São palpáveis e maleáveis. Meu caderninho de planejamento para o ano que começa, vem sendo preenchido há quatro semanas, e vou continuar a preenchê-lo a cada fim de metas realizadas com sucesso, com o peito repleto de felicidade, e os olhos marejados de agradecimento.

Como sou grata!

Todos os dias, três vezes ao dia, há comida na mesa de minha família.

Todos os dias, a cada sopro necessário, inspiro e expiro o ar com naturalidade e sem dor.

Todos os dias, a cada caminho que se abre, cresce em mim a coragem necessária para superar qualquer face que o medo se atreva a apresentar.

Sim, sou uma privilegiada.

O Amor brota em mim, e é fonte duradoura. E a Luz cresce em mim, e é o caminho correto. A Paz floresce no Jardim que conheço e venho conhecendo melhor a cada dia. Onde antes havia tristeza e aflição, todas as esquinas vazias vêm sendo luminosamente preenchidas por coloridos surpreendentemente belos.

É com esforço, consciência e dedicação que me apresento ao ano de 2018. Me preparando para o que há de vir, caminhando para o Norte e encontrando meu Guia para esta vida terrena, crendo em sua sabedoria, crendo em sua força, crendo em sua entrega e vislumbrando o dia em que a espiral completará seu atual movimento.

2017, valeu as surras, as festas, as vacilações e os aprendizados.

2018,… vamos lá?!

#TMJ #VMJ

Sobre Ricardo e Viviana

Ah! Esses dois!…

Esses dois surgiram em algum momento de 2015, quando ouvi Zero, Liniker pela primeira vez. Não tinham nome, nem sentimento, nem nada. Apenas sexo. haha

Daí, numa manhã monótona de novembro, enquanto esperava a roupa terminar de lavar, ouvindo Rudd em versões ao vivo, me conectando com aquele estilo hippie-limpo que acho mó válido de se admirar, veio surgindo essa imagem do Ricardo: meio dengoso, mas bastante voraz; atencioso, mas entregue a esses desejos mundanos que, em algum momento de nossas vidas, somos apresentados. Aquele tipo de homem (raro!) que sofre verdadeiramente com “nãos” vindos da amada.

A Viviana foi fácil de imaginar: Ela é inspirada nas curvas suaves do Liniker, na voz doce de Marisa Monte com um toque da ousadia vocal de Gal, o rosto suave da Tulipa e, ainda no jeito expressivo da Marjorie Estiano. Acho que a sorriso aberto da Isis Valverde e aqueles olhinhos traquinas também estão nela. Será?

Quanto à história, abertamente me deixei guiar pelos personagens. Sabia como queria que acabasse, mas tinha muita vergonha (MUITA!) de escrever essas intimidades assim, tão expostas. Confesso que peneirei palavras, para que o texto ficasse meio imaginativo e pouco chulo, mas não tem jeito: sexo é lá em baixo mesmo.

Devo dizer que minha maior inspiração foram os textos sem filtro da Ana Ferrari, pode isso produção? PODE!

E amei!

Tirei de mim um desejo de escrever assim. Ainda que não soubesse como e me reprimisse, ao mesmo tempo me sentia reprimida por não conseguir escrever dessas coisas. Vai entender! Não sei se vou repetir a dose, mas tá aí essa experiência deliciosamente ímpar de se vivenciar.

Ah! Apesar de tê-los separados em 3 e os ter publicado separadamente, foram todos escritos num dia apenas, entre as 10 da manhã, aulas à tarde, compromissos pequenos, e as 10 da noite.

parágrafo único: a dona do vento.

Cativo vem o vento desenhar em sua saia um sorriso de menino faceiro como quem brinca com o tempo e enfeita de beijos as suas cochas. Rodopiou nas barras das saias de tantas outras morenas, mas é dela de quem ele gosta mais. Brinca com as ondas do mar até, mas volta para debaixo da saia dela, cheio do cheiro novo de maresia. A menina que brincava com o vento viveu por toda a vida no alto da Montanha Castanha, onde o pasto era vasto e a grama sempre verde, as árvores altas e os cercados não se podiam ver de lado algum. Nas noites de frio, cortava lenha extra e trazia pra casa; nas de calor, despia-se e se banhava no córrego de águas calmas. O vento vinha todos os dias visitá-la e era sua mais confortante companhia. Quando ele não vinha, colocava-se sentada na cadeira de balanço do lado de fora da casa, se encolhia entre mantas, esperando que o orvalho a molhasse por completo, fazendo-a sentir a pele arrepiar por uma brisa suave que de vez em quando passava por ali. Isso era o que amenizava a ausência dele. Na manhã seguinte, com as cabelos ainda úmidos, alegrava-se com sua presença logo de manhã sendo, abrindo caminho entre as nuvens, fazendo o alvorecer surgir e se abrir no horizonte. Era um novo dia. Em vermelho, amarelo, alaranjado, verde, azul, anil e violeta. E o vento sabia onde morava. E ela sabia ser moradia.

(+18) Ricardo e Viviana: Calzone e pizza

(Parte I)

(Parte II)

Ainda respirando com uma dificuldade completamente prazerosa, Ricardo deixou Vivi na sala, embrulhada pobremente em seu sobretudo bege. Seu peito palpitava à fina pele, deixando que o sangue fluísse leve e rapidamente por todo o corpo. Sua excitação, sem chance de ser escondida, era brutalmente controlada com o simples intuito de prolongar a noite. Ainda não, dizia para si, agora não. E respirava profundamente, deixando que seu desejo exalasse por seus poros.

Em sua camisa social, calça leve e pés descalços, caminhava pelo quarto como um leão faminto preso numa jaula, mas respirava. Era daquele espacinho que precisava para se concentrar. Era a noite dele, e não dela. Ele era quem tinha que brincar de estar no controle. Vivi, com seu sorriso de derrubar barreiras de gelo de quilômetros de altura, mãos ágeis e apetite traquina, quase tinha conseguido tomar para si as rédeas daquela noite. Não, não, dizia para si, como se assim pudesse se convencer, ela é minha, mas não agora. Respira, Ricardo!, brigava consigo.

Com um apetite sutilmente controlado, ele procurou no guarda-roupa uma calça de moletom e uma camisa de algodão que, sem dúvida, iriam ficar muitas vezes maior que o corpo daquela mulher, mas o privariam de ver tanto da pele dela exposta. Era perfeito, então. Saiu do quarto com uma falsa firmeza nas pernas, mas estava se esforçando para que a noite pudesse ser prazerosa na medida e na hora certas. Entregou as peças para Vivi, que ficara esperando pacientemente no sofá, deu um beijo carinhoso em sua testa. Antes de voltar para a cozinha, para, enfim, dar início aos preparativos que havia guardado especialmente para aquela noite, observou enquanto ela deslizava o sobretudo por sobre os ombros e vestia as enormes peças de roupa, sentindo que, tanto quanto ele, ela controlava uma fome palpável.

– Uma pizza já está pronta. – disse ao chegar à cozinha com Vivi em seu encalço, fazendo os surdos toc-toc de seus saltos reverberarem, como tambores dum ritual antigo. – Mas você pode começar com uns aperitivos enquanto abro uma outra massa, que tal?

– Parece bom. – disse, singelamente, enquanto se sentava numa das cadeirinhas altas ao redor do amplo balcão da cozinha, tendo que ficar nas potas dos pés para alcançar o assento e encaixando os saltos no aro de apoio para os pés.

Enquanto a pizza esfriava um pouco, Vivi se servia de pedacinhos de queijos untados em azeite e de azeitonas, e Ricardo abria uma outra massa, com a maior dedicação, esperando que aqueles movimentos repetitivos o livrassem da imagem sedutora escondida em tantas rugas de pano.

Quando o segundo disco ficou pronto, Ricardo incentivou Vivi a espalhar o molho e escolher o recheio. Como quem acabara de receber um presente novo e brilhante, ela desceu do banquinho e se posicionou entre Ricardo e o balcão de mármore. Ele esperava conseguir se afastar, mas o cabelo dela cheirava tão bem… Respirou fundo, desde a raiz, deixando que aquela essência invadisse seus pulmões e incendiasse seus sentidos. Estava numa corda bamba… só que para qualquer caminho que resolvesse seguir, se se desequilibrasse ou se seguisse em linha reta, o resultado, era, sem dúvida, grandiosamente gostoso de se imaginar. Para fingir um controle inabalável, ele deixou que ela se divertisse com os elementos ali dispostos, e foi servir duas taças do vinho. Já era a terceira da noite, e não esperava parar por aí. Afinal, “anos, amores e taças de vinho são coisas que não devem ser contadas”¹. 

Retornando ao balcão, observando como o sutiã acariciava delicadamente o tecido de sua própria camisa e já imaginando como seria prazeroso sentir o cheiro daquela peça amanhã, quando o perfume de Viviana se destacasse em meio ao seu, Ricardo se aproximou por trás de Vivi. Pôs as taças em cada um dos lados da moça, sobre o balcão, deixando-a segura entre seus braços.

Não tendo nenhuma outra vontade a não ser a de se deixar tomar por Ricardo, ela se virou, sem fazer nenhum gesto de que era seu desejo sair daquele enlace. Abraçando-a firmemente contra seu corpo, quebrando aquele mínimo espaço entre os corpos, aproximando seus quadris o máximo que pôde, Ricardo beijou-a calma e mansamente. E enquanto seus lábios saboreavam aquela iguaria – tão conhecida sua -, seu coração se acelerava novamente, já sentindo fluir o sangue para seu membro, e quase se permitindo se entregar de vez àquela mulher. Ou tomá-la… quaisquer das escolhas o fariam feliz.

Afastou-se, deixando-a arfar, sentindo seu próprio peito subir e descer vigorosamente.

– Tome um pouco. – pediu, recuperando a taça sobre o balcão. – Vai bem com a pizza. Vamos comer?

Ela assentiu, fazendo os olhos rolarem dentro das órbitas, sorrindo descrente, apreciando o esquema de acende-e-apaga estabelecido por ele.

A pizza estava realmente deliciosa. Nada como uma boa receita caseira para melhorar um prato tão comum. Claro que a companhia e o bom vinho provavelmente fizeram com que tudo fosse mais apetitoso.

Terminado o jantar, eles recolheram os pratos, guardanapos e taças da sala. A outra pizza, não sendo necessária, foi posta com cuidado na geladeira juntamente com o restante dos ingredientes. Ricardo lavava a louça, enquanto Vivi terminava de limpar o balcão. Quando ela terminou, encostou-se ali, descansando o quadril sobre a pedra, observando aqueles bons quase 3 palmos e um pouco de ombros, embaixo da camisa, que deixava exposto os antebraços; as mangas enroladas até ali, deixando as lindas mãos livres sem molhar os punhos. Ela se deixava levar por aqueles pequenos detalhes, bebericando do vinho e desejando que aquelas mãos, finalmente, a tocassem.

Ricardo, encerrando o serviço, olhou para aqueles saltos altos quase completamente cobertos pelas barras de sua calça. As unhas pintadas de vermelho, o pezinho delicado e charmoso. Ela vai ter que manter esses saltos enquanto… ela vai ter que manter esses saltos, pensava risonho, admirando as curvas que aquele figurino fazia serem frouxas. Não conseguia desgrudar os olhos do entreabrir de sua boca, enquanto encaixava a borda da taça em seus lábios. O carmim já havia se esvanecido, mas o formato dos seus lábios… eram… únicos. Não sabia por quanto tempo mais queria se controlar.

Depois de enxugar as mãos, pôs o pano de prato de lado e caminhou até ela. Tomou delicadamente a taça de sua mão, como se pedisse permissão. Sorveu o último gole e colocou a taça dentro da pia. Voltou-se para ela, aproximando novamente seus quadris, acariciando seu rosto com ternura, convidando-a para um beijo com gosto de vinho. As mãos geladas por causa da água, a fizeram arrepiar quando os dedos daquele homem vasculharam sua bochecha, sua orelha e sua nuca. Sentiu-se lânguida por uma fração de segundos, um tanto ébria do vinho, bastante envolvida por aquele perfume íntimo.

– Vamos tirar isso, sim? – perguntou Ricardo tocando o cós da calça.

E sem esperar uma resposta concreta, ele abaixou o elástico, deixando que seus dedos e o tecido se esfregassem à pele polida daquela mulher que ele tanto desejava. Ajoelhou-se, tirando, com cuidado, uma perna de cada vez. De súbito, tomou-lhe nos braços somente o suficiente para colocá-la sentada no balcão e se pôs entre suas pernas.

– E isso também? – perguntou com uma simulada ingenuidade, começando a tirar-lhe a blusa.

Viviana, em resposta, apenas ergueu os braços, deixando que seus olhos se encontrassem e sentissem que estavam entregues. Aquele momento ela não havia planejado. Em sua cabeça, assim que Ricardo a conduzisse para dentro do apartamento, ele não conseguiria controlar o ímpeto de possuí-la por tanto tempo. O autocontrole dele começava a fazer com que ela duvidasse do seu próprio.

As mãos geladas de Ricardo pareciam queimar a cada toque delicado que, propositadamente, deixava acontecer enquanto a despia. Com as mãos em concha, tocava-lhe os seios, e beijava-lhe todo o colo. Os lábios, úmidos dos beijos, ficavam secos aos poucos, mas logo eram novamente banhados por aquela fonte perene que era a boca dela. Os beijos trocados, começavam a se tornar mais inquietos e impacientes. Vez ou outra, Ricardo conseguia firmar um pensamento de calma, mas logo em seguida, com as mãos de Viviana a tocar-lhe a face, o pescoço e a parte detrás dos cabelos, estava entregue ao perfume dos dois, deixando-se conduzir por aquela dança de braços, e beijos, e mãos, e carícias insaciáveis.

Com um gentil movimento, Viviana desabotoou a camisa de Ricardo e, enquanto despia seus ombros, mordiscava-lhe a carne firme, cheirosa e de gosto singular. A peça caiu ao lado das suas. Enquanto suas mãos ágeis se moviam com independência e desabotoavam as suas calças, os beijos eram ávidos, sedutores, provocativos. O perfume que exalavam preenchia o ambiente, ou pelo menos aquele pequeno, quase inexistente espaço entre os corpos. Ele deixou as calças escorregarem pelos quadris e se livrou delas assim que tocaram o chão.

Ainda que Ricardo tivesse tentado planejar aquela noite e se fazer forte diante de tamanho poder de sedução, nunca conseguiria imaginar que estar nos braços de Viviana seria tão imprevisivelmente incontrolável como naquele momento.


¹ referência ao filme A incrível história de Adaline, 2015.