Em cena: Homem e Mulher
04 set 2011 Deixe um comentário
em Gabriella [SS & A], Livro [G SS& A]
sala de estar e jantar. confortável e aconchegante. sofá de canto e um criado mudo, abajur e tapete claros. mesa de madeira redonda com três cadeiras. no centro da mesa um jogo de xícaras para café, e uma garrafa de café. homem e mulher em cena.
homem com mala média na mão. o paletó pendurado dentro das alças da mala. sem gravata. camisa social puxada de qualquer jeito para os antebraços. cabelo e costas costas da camisa nitidamente molhados.
mulher em roupa de festa. com o penteado desgrenhado, vestido meio amarrotado. descalça. recostada no próprio braço no encosto do sofá, com as pernas encolhidas sobre o móvel. os sapatos de salto no canto do tapete.
olham-se fixamente.
homem se aproxima, dá-lhe um beijo suave sobre os lábios. saí de cabeça baixa. desse do palco por uma escada, vai em direção ao fundo da platéia. sai pela porta dos fundos. luz de foco até sua saída. a porta se fecha.
mulher não se move, apenas acompanha a saída do homem. a porta bate, a luz de foco apaga e deve ser usada em toda o palco uma luz âmbar e azul.
pega os sapatos e leva para um trocador que deve estar atrás do sofá. troca a roupa de festa por uma camisola longa de seda branca.
vai até a mesa, serve-se de café. senta numa das cadeiras. mantem a postura sempre ereta. cruza as pernas. babe um ou dois goles.
[não deve usar muitos gestos, nem muitas expressões. deve se expressar pelo tom de voz]- Sabe quando você confia numa pessoa? Confia? Confiar mesmo? de não temer, não se esconder, muito menos escapar ou querer fugir. Entregar-se por completo? Sabe como é isso? (pausa longa) Este apartamento foi comprado há três anos. À vista. O carro que está na garagem também. Eu e… e… Guilhermo… nos… conhecemos na época de colégio. Éramos ótimos amigos. Amigos. Apenas amigos. Quando terminamos o segundo grau, acabamos indo para a mesma faculdade. Ele cursava direito e eu biomedicina. Amávamos os nossos cursos. Ele era extremamente apaixonada pelas letras e discursos. Eu amava meus tubos de ensaio e minhas pilhas de páginas para ler e analisar. Guilhermo sempre foi muito atraente. Sempre pareceu mais velho que sua real idade. Sempre foi o maduro, o correto, o incorruptível. Eu sempre fui aquela mulher que… nunca sonhou com casamento nem filhos. A natureza, feliz que seja! me ofereceu um ótimo cérebro e um rosto bem afeiçoado. nunca me faltaram homens ou convites. era nerd, sim! de segunda a sexta. sábados, domingos e feriados eram reservado para o que eu quisesse. fazer o que quisesse… de tudo que quisesse. Guilhermo, não! era concentradíssimo. Estudava o quanto podia e transava ao término d0 dia com quem bem entendesse – se assim quisesse -… mandava a menina do embora, estudava mais umas duas horinhas e dormia. No dia seguinte a mesma coisa. (respira fundo) Como nos relacionamos? Não me lembro bem. Quer dizer, lembro. Lembro sim. Foi numa festa de encerramento de uma república perto da minha. Eu não tinha com quem ir, mas fui. Ele eu não sei nem como foi para lá. Estava tão bêbada que nem sabia onde meu sapato tinha ido parar. (ri) Sei que acordei no apartamento dele, na cama dele, com ele só de cueca e eu nua só com um blusão dele. meu vestido estava pendurado no cabide, tampando o vidro da janela, meu sapato não sei como veio parar no canto da porta. minha bolsinha de mão estava no criado mudo (olha o criado no canto do sofá, levanta-se com a xícara de café na mão e liga o abajur. apaga-se a luz azul, mantem a luz âmbar. põe a xícara sobre o criado, senta-se no canto do sofá ao lado do abajur.) Sabe quando você confia em alguém? Confia? Confiar mesmo? dar-se por completo e sem medo? eu sabia que nada tinha acontecido entre a gente. pelo menos rezei pra que não tivesse acontecido (ri envergonhada). levantei, pus meu vestido, peguei os sapatos e a bolsa e, como “boa moça”, fui embora sem dizer uma palavra. acho que foi aí que começou a minha paixão por ele. …não parava de pensar naquela bunda bonita e nem no cheiro que tinha o quarto. (pausa. suspiro) passamos a nos encontrar com mais freqüência, inclusive para estudar e almoçar juntos. depois do estágio ele vinha pra minha casa, sentava na minha escrivaninha e empilhava os livros dele. eu me sentava na cama e lia meus artigos. eram momentos únicos… (suspira). nunca soube o que realmente aconteceu naquela noite. sei que os momentos de livros foram trocados por momentos de cama-pão-e-cama (ri mais uma vez) e que nos casamos pouco depois da minha formatura… (suspira) há 7 anos (suspira)… raramente brigávamos, raramente mentíamos, quase nunca deixávamos de transar pelo capricho do cansaço. ontem foi nossa primeira briga de verdade. depois do almoço ele se sentou na mesa e não parou com a calculadora. sussurrava a todo momento “não pode ser, tem que ser menos”… eu estava cansada da clínica, tirei a tarde de folga. deitei no sofá e dormi quase a tarde toda. acordei e ele continuava emaranhado com os papéis em cima da mesa. ele se virou, olhou pra mim e disse que Mirna – a secretária dele – estava grávida. Eu falei que era ótimo pra ela. Afinal, já estava casa há uns 5 anos. Já era hora! Ele olhou pra mim com um sorriso estonteante (com ar de quem sonha…) não me lembrava de ver sorriso nem olhar mais brilhantes ou encantadores. Ele me pediu um filho. Um filho, não. (corrige-se) Uma filha! (começa a chorar) Guilhermo, que nunca havia me pedido nada, me pediu uma filha. (aumenta o tom) Uma filha! Como ele podia me pedir aquilo? Eu trabalhava 12 horas por dia, ele 10. queríamos mudar de apartamento, mudar de carro, comprar uma cozinha nova e ele vem me pedir uma filha? não tive outra reação: ri! (chora e ri ao mesmo tempo) ri alto enquanto sua feição ia se transformando em algo menos debochado e mais sério. (pausa) Ele estava falando sério. (pausa) Ele queria uma filha. (pausa) (deixa o choro cessar, enxuga as lágrimas) Agora há pouco estávamos no coquetel de lançamento do meu livro. Ele estava lindo, esbanjando charme. a barba bem feita, o cabelo bem arrumado, o smoking impecável… Ele que escolheu meu vestido. (ri) Disse que era pra combinar com o smoking dele. Comportou-se como o ótimo companheiro que sempre foi. teve paciência com os fotógrafos, com os entrevistadores, com as câmeras, com tudo… sorrindo para todos os mestres e doutores totalmente desconhecidos… com o mesmo sorriso sincero de sempre. (pausa longa… começa a chorar novamente) assim era o que eu achava. (respira fundo) chegamos em casa. ele se sentou comigo no sofá (passa a mão sobre o assento) tirou meus sapatos, e transamos aqui mesmo, (acelera a fala) não tiramos nem a roupa. o sorriso dele enquanto gozava uma, duas, três vezes vezes era estonteante… e depois (pausa. volta ao ritmo normal de fala) chorou… chorou como se algo lhe doesse. pediu um abraço e (acelera a fala) continuou chorando enquanto balbuciava coisas sobre a discussão da tarde anterior, sobre termos uma filha, sobre que já era a nossa hora também, que me amava, que adorava estarmos juntos a tanto tempo, que era mágico como nos entendíamos em tudo… que era único estar comigo. mas… que… que… (atira a xícara no chão) (grita) aaaaaaaaaaaaaaaaaah!!!!! queria uma filha! (chora escandalosamente – a luz deve ficar mais clara) … (acalmando-se) … e que sempre soube que eu era… ….que eu era… estéreo… (chora) (apaga a luz do abajur. a luz do palco vira apenas uma penumbra. na penumbra, chorando, ela cata os cacos de xícara. põe em cima da mesa. senta-se na cadeira com a postura ereta. cruza as pernas. as cortinas se fecham. fim de cena.)