No fingerprints…

Passei oito dias sem acesso à internet e como me sobrava muito tempo com a tela do computador aberta, acabei por escrever dois textos. Este é o primeiro: “No fingerprints…”, em 08 de dezembro de 2011.

* * * * *

[and that’s all I can say about that old case of us]

Não há prova e não há quem me prove. Veja bem. Escrevo tão bem quanto ando ou… como. Mas de certo que não escrevo regularmente claro e desembaraçado. É um embaraço meu. Muitas vezes não sei dizer bem o que quero dizer e acabo nunca sendo precisa naquilo que pretendia dizer. Às vezes barganho comigo mesma dando-me palavras bem mais sutis do que meus próprios atos foram, assim como presumo muita coisa que não deveria deixar, mas não deixo. Muitas vezes vivo a postergar meus dizeres como um maquiador faz com as cicatrizes: esconde-as enquanto pode.

Look for the girl with the broken smile…
[and you will easily realize that that old case isn’t finished yet.]
Gostaria de saber dizer adeus com mais facilidade [e olha que sei falar adeus em inglês, espanhol, francês e italiano, sem contar que em português existem diversas maneiras de se dizer “adeus”...]. Livrar-me desses pequenos vícios e barreiras seria interessantemente conveniente. Poderia sentir algo mais de liberdade, algo mais de independência, de responsabilidade… mas até que ponto quero tudo isso? Já parei pra pensar que muitas atitudes minhas fazem-me inconfundivelmente dependente. E esse grito de independência parece-me cada dia mais mudo, mais… retardado… É isso. Não é que ele seja mudo, é que ele é inútil! Inútil como um pente sem dentes. Pensando bem um pente sem dentes serve para prender o cabelo com o cabo, ou serve pro filhote de cachorro morder… Enfim! É um grito inútil. Não avança, nem retarda. Permanece ali: incomodando.

Num lugar onde eu sou rainha e você, rei.
Versos de “Ne me quitte pas” que Maysa canta tão escandalosamente deliciosa, deliciosamente doloroso, saudoso, arredio, arrependido. Difícil mesmo é ser.

Because… I sad so!

Descobri o que me inspira: Jazz, Blues, vozes roucas e vorazes!

I would sacrifice anything come what might
For the sake of having you near
In spite of a warning voice, that comes in the night and repeats in my ear
“Don’t you know you fool you never can win
Use your mentality, wake up to reality”
For each time I do, just the thought of you makes me stop before I begin
Because I’ve got you under my skin

[I've got you under my skin]

Olha só, não quero dizer nem que sim nem que não, mas o que acontece é que esse sentimento de useless vem aumentando, sabe? É como se eu não pudesse mais tomar as rédias de minha própria jornada. E o mais engraçada é que eu sei que as decisões são pura e incessantemente minhas!

Bem, há daqueles dias em que se culpa por tudo. Acho que hoje é um desses dias! Cheia de dúvidas, de “se’s” e não é bem do meu feitio ficar nessa eterna dúvida. Ando sentimental também… e temerosa. Temo pelas minha irresponsabilidades, por minhas más atitudes e por aquelas que são impulsivas também.

Acho que estou vivendo no futuro. Como se pensar no futuro justificasse minhas atitudes presentes, e não justificam! Futuro é ali, daqui a um milésimo de segundo, ou até menos. É incerto. Não deveria ser planejado. Deixa um rastro enorme de incertezas, indecisões, decisões não tomadas, atitudes não reconhecidas! Que é isso, meu Deus?!?!

Algumas vezes me vejo cega quanto ao meu presente. Não consigo me ver carregando minhas atuais pedras. Sempre as vou rolando pra um pouco mais pra frente para não precisar sentir o peso delas agora. Mas uma coisa é bem certa: hora ou outra elas vão se encaixar num determinado buraco e não saberei como resgatá-las dali e olharei para trás sempre lembrando que eu poderia ter resolvido aquilo sem tanto pesar. Como uma avalanche sabe? Melhor, um bola minúscula de ímã passando por um campo de também minúsculas e leves esferas de ferro. Chega um hora que fero sobre ferro vai pesar. E muito.

Eu vejo essa bola-avalanche de ímã passar ao meu lado. Vejo tão nitidamente que as vezes paro para ver se ela está me seguindo ou se a estou carregando e não consigo bem entender a conexão entre nós. Hora sou eu que a carrego, evitando que mais esferas se adiram a ela. Outras, ela me escapa das mãos e, num baque surdo, liberta algumas esferas e atrai o dobro! E fica ali ao meu lado, onde quer que vá. Como aquelas bolas de chumbo de desenho animado que não os deixam caminhar normalmente

Busco me livrar dessa sensação de peso, culpa… mas é entorpecente a forma que me recordo dos caminhos não trilhados, daqueles que foram percorridos com dificuldade, daqueles outros que não sei até hoje como consegui passar por eles… daqueles que trazem um sentimento de alegria e saudade, dos outros que foram tão fáceis que não recordo tão nitidamente… Essas recordações também estão nessa bola fazendo com que me recorde de como proceder, como ponderar.

Ainda há muita dúvida a se dissolver, diluir, resolver, engolir, compartilhar…

Sobre o amor que vem e vai.

“Sometimes it lasts in love, but sometimes it hurts instead…”

[Adele - Someone like you]

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Uma das coisas que não vou esquecer: seu sorriso puro, de menino que acaba de ganhar um daqueles presentes que [parecerem] durar para sempre.

Manhãs chuvosas irão lembrar aquela eterna preguiça dos domingos logo cedo…

O esforço é grande, mas ao olhar atraves do espelho, sempre espero rever nossos olhares refletidos um no outro mais uma vez. Quem sabe um próximo dia, não? Ainda guardo essa esperança como quem guarda bombons no bolso para distribuí-los nas ruas.

Quando a porta se fechou no outro no outro dia, meu coração gelou. Minhas mãos tremeram. Meu estômago revirou. Meus dedos dos pés também gelaram. Não tive muita reação. Queria poder me livrar da sensação de te perder. Queria me livrar das memórias que rondavam meus dias como boas companheiras. Queria me livrar de qualquer coisa que me lembrasse seus abraços. Se possível fosse, jogaria fora cada peça de roupa que você tocou ou cheirou, e também aquelas que você me viu passar na rua e elogiou. Cortaria meu cabelo mais uma vez só pra não ter a sensação dos dedos em meus cachos, acarinhando-os… cheirando-os enquanto eu dormia – eu não dormia quando estava com você.

Se buscasse me livrar de todas essas sensações, bem provável que te esquecesse. Mas não quero! Está acima de mim essa vontade! É minha escolha, claro! E, por isso, digo: não quero!

Quero ter-te sempre perto como uma lembrança boa, como um sorriso fraterno, como um amigo bom, como uma experiência plena. Como um amor que guardo pra mim e mais ninguém. Ninguém precisa saber desse amor. Ninguém precisa saber que sofro de tons mais sutis que o próprio vento.

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- O primeiro sinal já tocou. Vamos?- Só estou refazendo a maquiagem.

- Ok. (Vira-se para o outro camarim) Está pronto? O Primeiro sinal já tocou.

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“Don’t forget me, I beg, I remeber you said: Sametimes it lasts in love, but sometimes it hurts instead.”

Não tão simples.

E você veio me dizer, no meio da noite, entre sussurros e carícias, que aquele era o amor puro que você tanto esperava. Agradeceu pelo amor, pela companhia. Ajudei-te a se vestir – aquele seu terno azul que eu tanto gosto de te ver usar – e, enquanto me penteava, você pôs o dinheiro embaixo da bailarina de porcelana. Seus negros olhos, de olhar astuto e carente, encontram os meus através do nosso reflexo no espelho da penteadeira. Tirou uma do bolso, beijo-a suavemente, pôs sobre a cama e fechou a porta com uma batida surda.

Já o vi partir tantas vezes – e já parti tantas outras – que…

Às vezes tenho vontade de…

Mas…

Não é tão simples assim.

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Ti amo tanto, amore mio … non canti
Il cuore umano con più verità …
Ti amo come amico e come amante
In una sempre diversa realtà.

(Vinícius de Moraes – Soneto do Amor Total)

Em cena: Homem e Mulher

sala de estar e jantar. confortável e aconchegante. sofá de canto e um criado mudo, abajur e tapete claros. mesa de madeira redonda com três cadeiras. no centro da mesa um jogo de xícaras para café, e uma garrafa de café. homem e mulher em cena.

homem com mala média na mão. o paletó pendurado dentro das alças da mala. sem gravata. camisa social puxada de qualquer jeito para os antebraços. cabelo e costas costas da camisa nitidamente molhados.

mulher em roupa de festa. com o penteado desgrenhado, vestido meio amarrotado. descalça. recostada no próprio braço no encosto do sofá, com as pernas encolhidas sobre o móvel. os sapatos de salto no canto do tapete.

olham-se fixamente.

homem se aproxima, dá-lhe um beijo suave sobre os lábios. saí de cabeça baixa. desse do palco por uma escada, vai em direção ao fundo da platéia. sai pela porta dos fundos. luz de foco até sua saída. a porta se fecha.

mulher não se move, apenas acompanha a saída do homem. a porta bate, a luz de foco apaga e deve ser usada em toda o palco uma luz âmbar e azul.

pega os sapatos e leva para um trocador que deve estar atrás do sofá. troca a roupa de festa por uma camisola longa de seda branca.

vai até a mesa, serve-se de café. senta numa das cadeiras. mantem a postura sempre ereta. cruza as pernas. babe um ou dois goles.

[não deve usar muitos gestos, nem muitas expressões. deve se expressar pelo tom de voz]- Sabe quando você confia numa pessoa? Confia? Confiar mesmo? de não temer, não se esconder, muito menos escapar ou querer fugir. Entregar-se por completo? Sabe como é isso? (pausa longa) Este apartamento foi comprado há três anos. À vista. O carro que está na garagem também. Eu e… e… Guilhermo… nos… conhecemos na época de colégio. Éramos ótimos amigos. Amigos. Apenas amigos. Quando terminamos o segundo grau, acabamos indo para a mesma faculdade. Ele cursava direito e eu biomedicina. Amávamos os nossos cursos. Ele era extremamente apaixonada pelas letras  e discursos. Eu amava meus tubos de ensaio e minhas pilhas de páginas para ler e analisar. Guilhermo sempre foi muito atraente. Sempre pareceu mais velho que sua real idade. Sempre foi o maduro, o correto, o incorruptível. Eu sempre fui aquela mulher que… nunca sonhou com casamento nem filhos. A natureza, feliz que seja! me ofereceu um ótimo cérebro e um rosto bem afeiçoado. nunca me faltaram homens ou convites. era nerd, sim! de segunda a sexta. sábados, domingos e feriados eram reservado para o que eu quisesse. fazer o que quisesse… de tudo que quisesse. Guilhermo, não! era concentradíssimo. Estudava o quanto podia e transava ao término d0 dia com quem bem entendesse – se assim quisesse -… mandava a menina do embora, estudava mais umas duas horinhas e dormia. No dia seguinte a mesma coisa. (respira fundo) Como nos relacionamos? Não me lembro bem. Quer dizer, lembro. Lembro sim. Foi numa festa de encerramento de uma república perto da minha. Eu não tinha com quem ir, mas fui. Ele eu não sei nem como foi para lá. Estava tão bêbada que nem sabia onde meu sapato tinha ido parar. (ri) Sei que acordei no apartamento dele, na cama dele, com ele só de cueca e eu nua só com um blusão dele. meu vestido estava pendurado no cabide, tampando o vidro da janela, meu sapato não sei como veio parar no canto da porta. minha bolsinha de mão estava no criado mudo (olha o criado no canto do sofá, levanta-se com a xícara de café na mão e liga o abajur. apaga-se a luz azul, mantem a luz âmbar. põe a xícara sobre o criado, senta-se no canto do sofá ao lado do abajur.) Sabe quando você confia em alguém? Confia? Confiar mesmo? dar-se por completo e sem medo? eu sabia que nada tinha acontecido entre a gente. pelo menos rezei pra que não tivesse acontecido (ri envergonhada). levantei, pus meu vestido, peguei os sapatos e a bolsa e, como “boa moça”, fui embora sem dizer uma palavra. acho que foi aí que começou a minha paixão por ele. …não parava de pensar naquela bunda bonita e nem no cheiro que tinha o quarto. (pausa. suspiro) passamos a nos encontrar com mais freqüência, inclusive para estudar e almoçar juntos. depois do estágio ele vinha pra minha casa, sentava na minha escrivaninha e empilhava os livros dele. eu me sentava na cama e lia meus artigos. eram momentos únicos… (suspira). nunca soube o que realmente aconteceu naquela noite. sei que os momentos de livros foram trocados por momentos de cama-pão-e-cama (ri mais uma vez) e que nos casamos pouco depois da minha formatura… (suspira) há 7 anos (suspira)… raramente brigávamos, raramente mentíamos, quase nunca deixávamos de transar pelo capricho do cansaço. ontem foi nossa primeira briga de verdade. depois do almoço ele se sentou na mesa e não parou com a calculadora. sussurrava a todo momento “não pode ser, tem que ser menos”… eu estava cansada da clínica, tirei a tarde de folga. deitei no sofá e dormi quase a tarde toda. acordei e ele continuava emaranhado com os papéis em cima da mesa. ele se virou, olhou pra mim e disse que Mirna – a secretária dele – estava grávida. Eu falei que era ótimo pra ela. Afinal, já estava casa há uns 5 anos. Já era hora! Ele olhou pra mim com um sorriso estonteante (com ar de quem sonha…) não me lembrava de ver sorriso nem olhar mais brilhantes ou encantadores. Ele me pediu um filho. Um filho, não. (corrige-se) Uma filha! (começa a chorar) Guilhermo, que nunca havia me pedido nada, me pediu uma filha. (aumenta o tom) Uma filha! Como ele podia me pedir aquilo? Eu trabalhava 12 horas por dia, ele 10. queríamos mudar de apartamento, mudar de carro, comprar uma cozinha nova e ele vem me pedir uma filha? não tive outra reação: ri! (chora e ri ao mesmo tempo) ri alto enquanto sua feição ia se transformando em algo menos debochado e mais sério. (pausa) Ele estava falando sério. (pausa) Ele queria uma filha. (pausa) (deixa o choro cessar, enxuga as lágrimas) Agora há pouco estávamos no coquetel de lançamento do meu livro. Ele estava lindo, esbanjando charme. a barba bem feita, o cabelo bem arrumado, o smoking impecável… Ele que escolheu meu vestido. (ri) Disse que era pra combinar com o smoking dele. Comportou-se como o ótimo companheiro que sempre foi. teve paciência com os fotógrafos, com os entrevistadores, com as câmeras, com tudo… sorrindo para todos os mestres e doutores totalmente desconhecidos… com o mesmo sorriso sincero de sempre. (pausa longa… começa a chorar novamente) assim era o que eu achava. (respira fundo) chegamos em casa. ele se sentou comigo no sofá (passa a mão sobre o assento) tirou meus sapatos, e transamos aqui mesmo, (acelera a fala) não tiramos nem a roupa. o sorriso dele enquanto gozava uma, duas, três vezes vezes era estonteante… e depois (pausa. volta ao ritmo normal de fala) chorou… chorou como se algo lhe doesse. pediu um abraço e (acelera a fala) continuou chorando enquanto balbuciava coisas sobre a discussão da tarde anterior, sobre termos uma filha, sobre que já era a nossa hora também, que me amava, que adorava estarmos juntos a tanto tempo, que era mágico como nos entendíamos em tudo… que era único estar comigo. mas… que… que… (atira a xícara no chão) (grita) aaaaaaaaaaaaaaaaaah!!!!! queria uma filha! (chora escandalosamente –  a luz deve ficar mais clara) … (acalmando-se) … e que sempre soube que eu era… ….que eu era… estéreo… (chora) (apaga a luz do abajur. a luz do palco vira apenas uma penumbra. na penumbra, chorando, ela cata os cacos de xícara. põe em cima da mesa. senta-se na cadeira com a postura ereta. cruza as pernas. as cortinas se fecham. fim de cena.)

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